postado por Alice05.08.2019

Os binários se sentem distintamente arcaicos nos dias de hoje, um meio mal equipado de categorizar – quanto mais entender – nosso mundo e as pessoas nele. Mas eu não deixaria isso me impedir de perguntar uma coisa muito importante para a Madelaine Petsch: ela se vê mais como uma seguidora de um culto ou como a líder de um culto?

Seguidora de um culto, com certeza,” Petsch me contou, sem um momento de hesitação.

Não porque eu sou uma ovelha,” ela continuou. “Eu não sou uma “maria vai com as outras”. Entretanto, eu não acho que tenho a personalidade carismática para fazer as pessoas me seguirem.

Petsch me contou isso ao fim de um longo dia juntas. Nós estávamos sentadas em um sofá atrás do estúdio de fotos onde as imagens dessa história foram capturadas; a estilista estava arrumando as prateleiras de roupas em tons de pedras preciosas; outra pessoa estava colocando par por par de saltos altos de volta nas suas caixas; outras pessoas corriam de um lado para o outro, limpando mesas, enrolando panos de cenário, guardando maquiagem e acessórios de cabelo. Nós sentamos longe da ação, mas sempre ficou claro onde estava o centro da gravidade; assim como sempre ficou claro quem era a estrela no local. Eu passei tempo suficiente conversando com Petsch para reconhecer que ela não estava sendo puramente autodepreciativa, e sim, de fato, sincera quando ela disse que não achava que tinha o que é preciso para obrigar as pessoas a segui-la. Mas eu também só tive que olhar em nossa volta para ser lembrada de quem no local era uma líder natural, e poderia facilmente acumular legiões de seguidores. E não é que Petsch poderia acumular legiões de seguidores, ela já tem: enquanto escrevo esta matéria, Petsch tem 16 milhões de seguidores no Instagram, assim como 4.6 milhões de inscritos no seu canal do YouTube, que se chama Madelaine Petsch.

Esses seguidores, ou pelo menos parte deles, vêm de cortesia do trabalho mais conhecido de Petsch atuando: seu papel como Cheryl Blossom na série extremamente conhecida, Riverdale. Cheryl não é exatamente a estrela do show; ao invés disso, Riverdale tem algumas estrelas como protagonistas: Archie e Veronica, Betty e Jughead. E mesmo assim, Cheryl se sente como o centro do show; ela dá o calor ao show. E isso se deve, em grande parte, ao vívido retrato de Petsch de uma personagem cuja vida pode estar cheia de reviravoltas, mas cuja credibilidade como pessoa real permanece intacta graças ao compromisso claro de Petsch com o papel.

Eu diria que Cheryl é uma de minhas amigas,” Petsch me contou, explicando como ela se aproxima do papel—e de todos os papéis. “É realmente lindo ser capaz de interpretar outro humano de forma verdadeira—mesmo que eles não sejam uma pessoa real.

Sua colega de elenco de Riverdale, Camila Mendes, falou comigo sobre o que faz a atuação de Petsch tão especial; ela disse, “Você não pode interpretar uma personagem como a Cheryl ‘meia-boca’, e uma das inúmeras coisas sobre Madelaine é que ela é comprometida. Ela se aquece no absurdo de seu personagem e nunca se esquiva dessa qualidade.” E, Mendes termina, “Então ela entregará esses momentos de vulnerabilidade que fazem sua personagem muito mais complexa. É isso que faz com que ela seja uma das favoritas dos fãs. Suas aparições são inesquecíveis.

Outra razão pela qual Petsch é tão amada é a relação de Cheryl com uma pessoa do mesmo sexo, com Toni Topaz (interpretada por Vanessa Morgan), o que não so fez com que o casal nas telas, vulgo Choni, ganhasse uma base de fãs imensa, mas também tornou claro para Petsch o poder de sua profissão, e sua habilidade de potencialmente mudar vidas.

A resposta que eu tive de seres humanos reais—pessoalmente—me dizendo que minha arte os permitiu se assumir para seus pais, ou ficar confortável sendo assumidos,” Petsch disse, “ foi a parte mais recompensadora de interpretar Cheryl… muitas pessoas me contam que só foram capazes de aceitar sua sexualidade por causa da minha personagem em uma série. Eu acho que nunca serei capaz de superar isso.

É uma responsabilidade que Petsch leva incrivelmente a sério; mesmo que Choni seja um casal fictício, Petsch sabe que a relação de Cheryl e Toni é uma inspiração real para inúmeros jovens, e por isso ela se negou a jogar “casa, beija ou mata” com as personagens Toni [Topaz], Betty [Cooper] e Veronica [Lodge] para que os fas não se chateassem com suas escolhas.

Isso pode soar um pouco absurdo—afinal, “casa, beija ou mata” é só um jogo, e essas personagens não são pessoas reais. Ninguém realmente pensaria que Petsch poderia matar alguma delas, certo? Bom, errado. Porque os fãs de Riverdale são intensamente dedicados, e foi essa intensidade que inspirou Petsch a criar seu canal no YouTube em primeiro lugar, para que ela pudesse mostrar ao mundo que Madelaine Petsch não é Cheryl Blossom, e Cheryl Blossom não é Madelaine Petsch. E apesar do canal de Petsch no YouTube ter sido, inicialmente, criado como uma maneira de postar vídeos que mostrassem aos seus seguidores sua personalidade diferente da de Cheryl, ele se tornou algo maior ao passo que Petsch descobriu sua afinidade não só de se comunicar com sua audiência através da plataforma, mas também de filmar e editar vídeos. 

Então, enquanto Petsch ama o que Riverdale deu a ela—”Eu acho que não tem um dia que eu estou no set que sinto que estou trabalhando… É como um playground criativo com várias pessoas que são apaixonadas pelo que fazem. É a coisa mais legal“—ela também disse que se não estivesse atuando, ela amaria trabalhar com edição, graças à alegria que ela sente editando vídeos para postar em seu canal toda quarta-feira.

E, é claro, não são apenas os vídeos que ela está construindo com sua edição, mas também a Madelaine Petsch que ela está construindo—ou melhor, é a personagem Madelaine Petsch, que é e ao mesmo tempo não é a mesma coisa que a Madelaine Petsch real.

Eu fico tipo, ‘O que é a Madelaine?‘” Petsch me disse, depois que eu a perguntei onde ela define seu limite do que compartilhar ou não com sua audiência. Petsch explicou que há certas coisas que ela nunca revela: “Minha casa. Muitas pessoas ficam tipo, ‘eu quero um tour por sua casa,’ e eu fico tipo, ‘este é o meu espaço seguro’—especialmente minha casa em Vancouver e minha casa em L.A.” Ela continuou listando coisas que são privadas demais para seu público: “Minhas amizades… minha família. Você nunca verá meus pais ou meu irmão no meu canal no YouTube.

E, Petsch disse, há algumas coisas que ela já compartilhou, mas não se sente mais confortável em compartilhar: “Minha relação [com o músico Travis Mills]. Eu costumava compartilhar muito sobre minha relação online, e agora que eu não compartilho, as pessoas supõem que não estamos mais juntos. Mas, na realidade, eu percebo que é muito mais especial e segura quando eu não compartilho muitas informações.

Ao invés de trechos de sua vida, o canal de Petsch é preenchido com vídeos do tipo engraçados e consumíveis, do tipo que estão entre a moeda mais valiosa da internet agora. Por definição, eles oferecem a ilusão de intimidade, sem a vulnerabilidade. “O que eu amo sobre o YouTube é que eu tenho todo o controle criativo,” Petsch me contou. “Não é necessariamente sobre me proteger, é que eu posso ter o controle completo da narrativa que está rolando sobre mim.

Mas, enquanto o controle da narrativa de Petsch é evidente, seria errado dizer que também não é revelador, porque—como qualquer pessoa familiar com edição sabe—as histórias são tão facilmente contadas por omissão quanto pela inclusão. E há, por necessidade, muita coisa que Petsch omite. O dia inteiro que passamos juntas, incluindo o tempo que estávamos sentadas para esta entrevista, Petsch estava sendo filmado por sua amiga, Taylor, para que ela pudesse ter material para um vídeo por trás das câmeras deste ensaio fotográfico para seu canal no YouTube. Horas e horas de material foram gravadas para o que será, inevitavelmente, um vídeo de menos de cinco minutos. E esse é apenas um exemplo; há também uma lista de coisas que Petsch me contou que mantém fora de seu canal: sua família, seus amigos, sua casa, sua relação. Então, o que sobra para incluir em seus vídeos? Basicamente, apenas ela mesma. Mas, em suas próprias palavras: “O que é a Madelaine?

Existe uma maneira pela qual esse nível de controle narrativo reconhecido por alguém que está simultaneamente dizendo que ela está oferecendo aos fãs uma visão de sua vida pode parecer insincero – particularmente quando a pessoa que ela está interessada em transmitir é conhecida por sua espontaneidade e capricho. Mas então, há outra maneira de navegar em uma indústria traiçoeira, e um reconhecimento do fato de que sempre que uma celebridade revela um aspecto de sua vida ou opinião sobre um assunto potencialmente controverso, ela é frequentemente usada como arma contra eles. Por que não se certificar de que cada palavra que você pronuncia é uma palavra que você colocou no mundo intencionalmente? Ou, como Petsch me disse explicando por que seu canal no Youtube é uma plataforma tão importante para ela, “Eu posso dizer exatamente o que eu preciso dizer”—e não há nada que qualquer pessoa possa fazer com essas palavras.

Ouvir Petsch falar sobre todas as coisas diferentes que ela precisa desconfiar me fez simpatizar com o quão exaustivo deve ser ter que interrogar constantemente aquilo que você está fazendo e dizendo, para que suas ações e palavras não sejam mal interpretadas. Eu a questionei se esse tipo de consciência nunca pesou como um fardo, já que é uma luta sem fim para não dizer a coisa errada. Mas a resposta de Petsch foi rápida e empática. “Eu preferiria estar em um lugar onde eu tenho que ser mais consciente socialmente do que um lugar que é totalmente livre e não há consequências por infligir danos físicos, emocionais ou verbais aos outros. Por exemplo, o movimento #MeToo, eu tenho certeza, é assustador para muitos homens agora, e eles provavelmente estão sendo muito mais cuidadosos com suas ações,” Petsch disse. “Mas, na realidade, eles deveriam ser. Eu me sinto muito apaixonada por isso,” ela continuou: “Quando isso [o movimento #MeToo] veio à tona, eu vi muitos homens tuitando coisas como ‘Ai Deus, como se agora nós tivéssemos que ser cuidadosos,’ ou algo do tipo. E é honestamente tipo, você sempre deveria ser cuidadoso.

Petsch se revela como alguém que sempre é cuidadoso, e ainda assim, essa vigilância não vem do medo, mas sim de um senso de responsabilidade. Petsch me contou, “eu estou feliz que nós estamos em um local onde todos somos conscientes de nossas ações, e nós somos mais cuidadosos, porque nós deveríamos ser mais respeitosos com as pessoas. E isso é óbvio para mim… Eu estou, na verdade, muito orgulhosa e honrada de fazer parte de uma geração que está chamando a atenção sobre as m*rdas das pessoas.” Ela pausou, e então disse: “Eu não sei se eu posso falar palavrões [na entrevista], mas tanto faz.”

O início do movimento #MeToo foi um tempo fundamental para Petsch. Foi no fim de 2017, e Riverdale tinha acabado de ter a estreia de sua segunda temporada; ela estava em uma nova altura de sua visibilidade pública, e faria sentido não querer atrair atenção para si mesma ao não entrar na conversa. Mas, isso não foi o que Petsch fez. Ao invés disso, com um tuíte, ela expressou sua solidariedade à todas as pessoas que passaram por algum tipo de violência sexual. “Eu me juntei ao movimento #MeToo. Eu acho que o que as pessoas não entendem é que o #MeToo não se relaciona necessariamente só com a indústria, ele se relaciona com qualquer tipo de assédio sexual,” ela me contou. “O movimento #MeToo foi imenso e incrivelmente empoderador para que as mulheres pudessem se levantar e ficar tipo, ‘isso também aconteceu comigo.’ Ele conectou esse grupo todo de mulheres do mundo inteiro de uma maneira linda. Quero dizer, é triste o que aconteceu, mas, ao mesmo tempo, é tipo, o fato de que nos juntamos é incrível.

Há uma dicotomia interessante que existe em grande parte do espaço online agora, e que certamente existe no próprio canto da internet construído por Petsch; ou seja, enquanto algumas coisas aparentemente inócuas – como amizades, família, etc. – são consideradas proibidas para consumo público, outras coisas que são consideradas tabus – como assédio sexual – se tornaram mais públicas do que nunca. Pode parecer contra-intuitivo, talvez, perceber que os limites pessoais de uma pessoa não abrangem coisas que eram consideradas privadas por muito tempo, mas engajar-se nessa área de desconforto é precisamente como as conversas importantes são iniciadas e o progresso é alcançado. Esse é o motivo por que Petsch também fala muito sobre ir à terapia, e como a terapia a ajudou com sua ansiedade e ataques de pânico. “Fale sobre seus estigmas, cara,” Petsch disse, enquanto nós conversávamos sobre o que a fez procurar terapia. “Quero dizer, eu nem sabia o que era, mas eu costumava ter ataques de pânico horríveis antes de conseguir meu papel em Riverdale. Então, eu comecei a desenvolver uma ansiedade social muito ruim, e eu só consegui descobrir o que essas coisas são e trabalhar através delas [com a terapia].” Ela continuou, “Eu não estou dizendo que tive um grande progresso, mas ser capaz de entender e identificar os problemas é o primeiro passo. Eu só poderia ter feito isso com a terapia. Então eu entendo que talvez algumas pessoas pensem que há algum tabu ao redor da terapia, mas, tipo, você fala com a sua mãe, com seus amigos—é a mesma coisa.” E, da mesma maneira que Petsch mencionou que ser parte de uma comunidade era um aspecto importante para o movimento #MeToo, ela notou que há algo similar com o bem-estar da mente. Ela disse, “saúde mental é incrivelmente importante para mim, e eu estou muito feliz de fazer parte de um grupo de mulheres com o elenco [de Riverdale] onde todas falam abertamente sobre isso. Se eu estou tendo um dia ruim e sentindo minha ansiedade me atravessando, eu ligarei para Cami [Mendes], e irei à sua casa, e nós comeremos damascos secos e falaremos sobre meus problemas até que eu esteja melhor.” E mesmo que a comunidade de Petsch possa consistir de milhões de seguidores, e mais imediatamente de seus colegas de Riverdale, a lição que ela está transmitindo ao compartilhar o poder da comunidade é universal: lembre-se de que você não está sozinho; lembre-se de que ninguém é perfeito e você também não precisa ser.

Essa última parte é algo que Petsch lutou por algum tempo, ela disse, até ela entender que a arte—e a vida—são, inerentemente, são bagunçadas. Ela me disse, “Eu não acho que perfeccionismo e arte podem estar na mesma frase, mas eu não sabia disso quando comecei… Não necessariamente com Cheryl, mas mais com Madelaine como pessoa—tipo, minha vida tinha que ser perfeita. Mas eu percebi que ninguém tem uma vida perfeita. Minha vida certamente não está nem um pouco perto disso. Não existe arte e artista perfeitos.

 

Tradução e adaptação: Madelaine Petsch Brasil. 

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